Personalidade Gammonense – Mariza Rocha e Oliveira

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Mariza Rocha e Oliveira

Estudei no Instituto Gammon durante 7 anos, de 1951 a 1957.

A viagem de Ibiá (MG) a Lavras era feita por trem, RMV (Rede Mineira de Viação) e durava, no mínimo 12 horas, com baldeação em Garças de Minas aonde com alguma frequência, perdíamos a conexão e a viagem se estendia por muitas horas. Mas eu não estava sozinha. Éramos cerca de 40 estudantes oriundos de Goiás e de várias cidades mineiras do Alto Paranaíba e do Triângulo que, juntos, fazíamos essa viagem rumo a escola de Samuel Rhea Gammon. Os estudantes mais velhos e experientes, assumiam a condução do grupo o que dispensava a companhia de familiares que se despediam na plataforma de embarque. Assim, aos 11 anos, pesando 29 quilos, de acordo com a minha primeira ficha de exame biométrico, eu entrei no internato do Colégio Carlota Kemper.

A opção por Contabiidade me levou ao curso Básico situado no ginásio. Com sol ou chuva, íamos nós, juntamente com as alunas do curso científico, enfileiradas, passando pela rua de trás, para as aulas que se iniciavam às 7 horas. Às 11 horas caminhávamos no sentido contrário e quem tinha mais aulas à tarde tinha pouco tempo para almoçar e refazer o percurso. Após 4 anos, o início do curso de Contabilidade. Naquele ano, 1955, a maioria das formandas do curso ginasial, se matriculou no curso de Contabilidade cuja turma era composta, na sua maioria, por alunas locais, já que as internas éramos apenas duas, Marilda e eu. Nos finais de semestre, o grupo feminino, com permissão da D. Margarida, se reunia numa sala de aula do Kemper para nos prepararmos para as provas. Um grupo alegre e solidário.

Na grade curricular, muitas matérias e alguns professores que deixaram suas marcas. Com Martinho Sena além de datilografia, muito útil também na era digital, eu aprendi que a cada Crédito corresponde um Débito e se assim não for o Balanço não fecha. Uma noção que extrapola os livros fiscais e norteia muitos aspectos da vida.

Das questões práticas de Roberto Coimbra fluíram, naturalmente, a precisão ortográfica e gramatical das redações. As apresentações orais preparadas ou improvisadas deram fluxo às expressões das ideias com substância e clareza.

Waldir Azevedo não tinha pressa e nem utilizava grande volume de matéria para ensinar a raciocinar, calcular e dar respostas aos problemas apresentados. Para ele não bastava fazer as contas e obter um resultado numérico. Era preciso interpretar esse resultado, transformar esse dado em informação que possibilitasse responder a pergunta formulada no problema. A resposta certa não era apenas um número. E além de tudo a sua metodologia tinha um aspecto lúdico. Ele oferecia várias oportunidades para o aluno tirar a nota máxima sem fazer a prova mensal. Uma delas era responder com acerto e mais depressa, um determinado problema que ele apresentava na hora. Eu não fiz provas mensais de matemática e guardo vestígios da racionalidade e organização do Professor Waldir.

O professor Lousada nos fazia desenhar no quadro negro um verdadeiro Atlas Geográfico. Todos os continentes e seus países, indicando suas capitais e os respectivos acidentes geográficos. E lá íamos nós viajando pelo mundo sem tirar os pés da sala de aula. Mais tarde, viajando ou morando no exterior, eu me lembrava de fronteiras, rios e montanhas apontados pelo professor Lousada.

Dr. Jair Ribeiro Guaraci. As noções de Estatística me apoiaram pela vida afora. Nos exercícios de Contabilidade, era notória a sua intolerância a qualquer lançamento ou manobra que visasse burlar ou reduzir a tributação legal. Transparência total era a regra de ouro. E daí o cuidado nas minhas declarações de Imposto de Renda.

Formatura de Contabilidade

As Práticas Jurídicas introduzidas pelo Dr. Almir de Paula Lima nos apontavam o rumo do certo e do errado. A escolha é de cada um. Ele fez, de improviso, a escolha de dançar comigo a valsa de formatura, no clube de Lavras, no lugar do meu pai que não estava presente. Isso me valeu uma repreensão grosseira pela diretora do internato, apesar de eu já estar formada e desvinculada das regras da casa. Não foi o Dr. Almir que fez a escolha errada.

Ao longo do dia no Kemper, se ouvia muitas campainhas e sinos. O melhor deles era suavemente tocado no final da tarde, pela Genoveva Simões, chamando para a reunião de oração no jardim da D. Margarida. Um grupo pequeno dirigido por Célia Gonzaga, separava aquele tempo de paz e tranquilidade, para conversar, cantar, refletir e orar. Isso era bom e nos fortalecia.

As kemperinas não tinham acesso à pratica de esportes, salvo uma meia dúzia que conseguia participar do único time de vôlei feminino. Mas no Dia do Instituto elas torciam com entusiasmo pelos atletas gammonenses.

Vôlei . Em pé Clotilde, Abia, Ibia, Zita, Selma, Angelica, Lourdes, Mary Agachadas Carmen Silvia, Liba, Heloísa, Mariza

Volei em competição no Rio com Ricardo e Xavante

Nós éramos cerca de 110 alunas com idades que variavam entre 9 e 20 anos. A administração do internato não dispunha de liderança acadêmica, nem social e nem cultural. A função das regentes era de sentinela, sempre pronta a denunciar e a “tirar o privilégio”. O melhor vinha das próprias alunas, sobretudo aos sábados, quando tocavam o piano do refeitório para alegria das colegas e tristeza da D. Josefina que não queria ver suas pupilas envolvidas com música popular. Entre elas a Lenice Tiso Veiga, a Norma Bergo Duarte, a Maria Célia Marques que além do piano tocava a harpa própria. A sua bagagem incluía uma belíssima harpa. E também a Yeda Zuchi com seu acordeão.


Outro destaque musical era o coral regido pela Miss Mildred. Ela nos preparou e nos conduziu na programação normal e também na apresentação do Messias de Handel e da opereta O Mikado, dentro de padrões muito acima do usual. Nessa ocasião houve ainda a apresentação do tenor Tito Schipa em Lavras. Para recepciona-lo foi organizado um coral com participantes lavrenses e alguns outros escolhidos no coral do Gammon. Foi uma noite inesquecível cantar junto com Tito Schipa.

Na inauguração do prédio Martha Roberts, foi feita a encenação da vida de Bach. No elenco eu, ainda menina, interpretei a primeira fase da vida dele. Em um momento Bach tocava o seu famoso cravo. Na cena, eu, no palco, “tocava“ o cravo improvisado mas o som partia do piano tocado pelo Ricardo Sauer, atrás das cortinas. Houve um desacerto e o som começou a ser ouvido enquanto eu ainda abria a partitura. A plateia riu mas o pequeno Bach foi em frente na sua execução creditando tudo à virtuosidade do compositor. E no final deu certo.


A D. Clara Gammon morava num pequeno apartamento no próprio prédio do internato. Em algumas ocasiões ela fazia as refeições conosco mas a maioria do tempo ela ficava no seu apartamento escrevendo as memórias do Dr. Gammon. Eu não me lembro de ouvi-la falar sobre essas memórias. Infelizmente ela não dividiu conosco nos contando ao vivo, qualquer episódio da vida dele. Somente mais tarde, através de leituras e outros relatos é que vim a conhecer a obra completa e a trajetória pelo país afora, desse grande homem.

Foi um privilégio fazer parte da escola que recebia alunos do país inteiro, sem qualquer tipo de discriminação, seja de origem, de raça, de classe social, de religião ou de qualquer outra categoria. Ali éramos um grupo de crianças e jovens curiosos, unidos pelo mesmo ideal de aprender. Aprendizagem que resultaria não só na assimilação de conteúdos curriculares mas também no crescimento em sabedoria, em nobreza de caráter, em solidariedade, em amor a Deus e ao próximo, tal como nos legou o nosso inesquecível missionário e educador Samuel Rhea Gammon.

Mariza Rocha e Oliveira
Casada com João Batista Araujo e Oliveira.
Dois filhos: Paulo e Denise; três netas: Lia, Joana Rita e Alice.
Irmãos gammonenses: Jair, Rita, Hugo e Dulce
Sobrinho gammonense: Márcio Roberto Dias
Formada em Contabilidade, Psicologia e Pós Graduação em Pesquisa Educacional.
Trabalho:
Banco da Lavoura; Ministério da Educação: PRONTEL E CENESP; Ministério do Planejamento: SEMOR; Ministério da Fazenda: Escola Fazendária.
Universidade John Hopkins: Centro de Estudos Brasileiros; em Genebra: ICVA e Conselho Mundial de Igrejas.
Atualmente, Diretora do IAB – Instituto Alfa e Beto (alfaebeto.org.br) , fundado e presidido por João Batista Araujo e Oliveira.

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